Domingo, 10 de Maio de 2009

cantos coadjuvantes

sim, eles existem, mas você não costuma lhes dar atenção
talvez só tenham sido olhados no tête-à-tête pela pessoa que fez a pintura da parede ou trabalhou na construção

o seu lugar.. é seu, como mostra o nome. vive (na sua realidade) em função do dono, está aí para servir, modificado como for preciso. geralmente os lugares mais valorizados da sua casa são aqueles funcionais. os que armazenam um sofá, uma cama, um vaso sanitário, têm mais status que uma quina de teto de corredor, por exemplo. mas ela tem seu valor.. é suavizada, um detalhe que quase não dá pra ver pois a luz não atinge muito.. há pedaços consideráveis de parede e tinta que, em K anos vivendo nessa casa, ninguem jamais encostou (fora seu criador). nem poeira deve ficar direito ali. talvez só lagartixa de vez em quando tenha tido essa oportunidade (talvez aquela quina seja algo como uma "praça" para elas, e o corredor nosso passe despercebido, inalcançável como o ar que está longe).

o seu lugar é mais que as partes que abrigam funções convencionais. a vida moderna te coloca pra correr, te acostumando a usar o ambiente, sem olhar pra ele de outras maneiras que não a de um usuário convencional. taí outro exemplo de Vista Cansada

Sábado, 14 de Março de 2009

de copo e alma

em março tão saindo vários posts. talvez um prenúncio de um futuro limitado

no novo ângulo pelo qual tenho enxergado as coisas, é fácil ver o quanto uma mente retraída pode nos limitar de bobeira, por mero vacilo. um objeto vai ilustrar isso: um copo, que eu acabara de usar no MegaMatte, em Niterói. olhei para o copo e pensei: "é um copo realmente muito bom, apesar de descartável, é de um isopor diferente, e tem 500ml, melhor que os de casa."

quis levá-lo pra casa, para tomar meus sucos sem necessidade de recarga, mas ainda tinha coisas por fazer. procurar/experimentar/comprar roupa pra usar no trabalho (eu sempre me vesti que nem moleque), pegar onibus cheio tb, ir numa palestra, etc. e como o copo é quebrável, não poderia coloca-lo na mochila. ia carregar na mão por horas.

geralmente eu já pensaria nas pessoas olhando e não entendendo (e na dificuldade de manejar coisas como abrir a mochila, o troco do onibus, mexer nas camisas etc), e desistiria, vendo o copo como uma 'questão pequena' que não vale o esforço (mental, pq o fisico é só desculpa pelo constrangimento).. tem que ligar o foda-se mesmo, que nem o Leo, que se alonga nas hastes do vagão do metrô

e fui nos lugares, eu e o copo, fizemos um bom passeio no dia.. só na prática mesmo pra ver que é zero problema as pessoas olharem.. a mulher do provador, as pessoas nas filas, nos caixas, a garota q sentou do meu lado no onibus.. achando ridículo ou não, é até um bom iniciador de papo. e o ridículo pode ser manero, tava faltando perceber isso. olha ele aí:

Domingo, 8 de Março de 2009

aeroporto nostálgico

trilha sonora:

desde criança tenho um sentimento estranho relacionado a aeroportos de noite, um clima peculiar de viagem. hoje eu enxergo a seguinte cena no aeroporto: um restaurante legal, iluminação pouca e boa, faltando 2 horas para o embarque em noite fria e estilosa. a sensação de leveza predomina, apesar da solitude companheira de sempre.

algumas pessoas passando se olham com um 'algo a mais', é o momento de ansiedade e despedida (ou reencontro). cada uma com suas histórias e problemas, são indecifráveis ao olhar, mas permitem uma vaga noção. outras só estão trabalhando. de qualquer forma, o terminal vazio deixa cada um nele um pouco menos coadjuvante de seu próprio momento. a bagagem, minimalista, parece ter o suficiente. afinal, os momentos (e são eles que realmente interessam) não pesam nem ocupam espaço, a não ser na memória, tão grande quanto for o tempo. bagagem de mulher é nitidamente maior.

o avião é um ambiente interessante, até dá pra aceitar viver nele por algumas horas. existem vizinhos ao seu lado, às vezes da pra trocar uma idéia, ou uma revista.. crianças chorando, comissárias bonitas passando, alimentação 'grátis'. as luzes da cidade vão deixando saudades enquanto se afastam, simbolizando coisas que vão ficar longe.

não sei se isso tudo é na ida ou na volta, a vontade é de não poder distinguir uma da outra

Quinta-feira, 5 de Março de 2009

sopravvivere

é bom lembrar que não somos diferentes das outras formas de vida, por mais simples que sejam, se olharmos por fora, pelo ângulo da participação no meio.. estamos aí consumindo, reproduzindo, sobrevivendo, tanto quanto as bactérias.

mas internamente o ser humano consegue complicar as coisas. não nos sentimos sobrevivendo de fato sem atender a algumas regras. é como se tivéssemos que várias coisas: ter um rumo na vida, fazer uma faculdade, ajudar ao próximo, atingir um peso legal, "mandar bem", ter um feriado divertido e/ou com viagens, etc.

entretanto não consigo deixar de concordar com o Davide do filme 'Janela da Frente', ao propor outra complicação: não devemos nos contentar por sobreviver, mas sim viver num mundo melhor, não apenas sonhar com ele. obviamente 'mundo melhor' aí não é todos estarem amigáveis e ecológicos, mas sim ter uma vida que valeu a pena, cada um ao seu gosto. e sobreviver significa 'continuar vivendo'.

agora vem a pergunta: estaria aí a diferença entre os humanos e as outras espécies?

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

sobre a vista cansada

um dia, fazendo um concurso público, me deparei com um ótimo texto:
Vista Cansada, de Otto Lara Resende (leia)

sobre o poeta ser "um modo de ver", concluo que deveríamos ser poetas (pelo menos um pouco) nessa vida. é a forma de personalizar (dar a nossa cara a) esse filme que está rodando desde que nascemos (do qual nem todos somos diretores). não precisa ser poeta de escrever versos e estrofes no papel, afinal poucos têm talento para isso. a poesia pode estar, por exemplo, na forma de tirar uma foto, enxergando por ela um universo mais rico que a coleção de objetos retratados fisicamente. ou no modo de assistir um filme.. ou uma mulher que volta do trabalho apoiada no metrô, que instiga a imaginar por quê ela faz aquela cara de angústia.. enfim, é a capacidade de, até no consumo, você dar propriedade ao ato, mesmo que tudo ocorra dentro da sua cabeça.

o que o autor fala é importante: por aí tem muito pai que não vê o filho, muito marido que não vê a mulher e vice-versa. pior: a falta de "poesia" (nesse contexto) é aprendida e repassada pelas gerações e relações. como ninguém se entretém com aquilo que não vê, a vida fica mecânica, orientada a fatores externos previsíveis (geralmente obtidos através de dinheiro) e os grandes momentos de um dia correm o risco de ser "prova do lider do big brother" e "ir pra balada".

Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

fazendo a diferença

acho bom quando as pessoas tornam mais especial ou emocionante aquilo que seria só mais um momento rotineiro. (desde já tenho que admitir, junto com Leo, que em algumas situações a coragem pra colocar isso em prática não vem, mas sigo tentando).

hoje ao chegar com Leo no Rei do Mate, o dono da loja que estava atendendo era antipatico demais.. respondendo sempre escrotamente, nao queria nem liberar uma pia pra lavar a mão. Leo pede por um pouquinho de menta em seu mate, e o cara impiedosamente fala "Não, aí tem que pagar" com um ar enjoado.. Mas, a alguns centimetros dali, o funcionário que servia o mate resolveu dar um plus em seu momento, e chama nossa atenção, zoando o dono com prazer em seu rosto, resmungando/fazendo algumas caras que me diziam "pow esse cara ae eh muito chato, to de saco cheio", e colocando escondido a menta tão sonhada no copo

outro exemplo que me lembro bem foi num dia que eu estava esperando o 996 há séculos. quando o ônibus finalmente passou, fiz sinal e o motorista passou reto. mas em seguida o sinal fechou, o que me encheu de esperanças de conseguir alcança-lo correndo.. então comecei a maratona, e como o trânsito não estava tão rápido, ficava sempre a alguns metros de conseguir. eis que surge um 511 ao meu lado, com a porta da frente aberta.. o motorista falou "pula ae, bora alcançar ele". foi perfeito, pois nesse momento a pista liberou, e só o poderio de um veículo como o 511 me deixaria ainda com chances reais.. depois de algumas ruas conseguimos finalmente alcançá-lo. subi no 996 duplamente gratificado, tanto pelo objetivo atingido quanto pela atitude inspiradora do motorista do 511

esses aproveitam a vida

Sábado, 3 de Janeiro de 2009

a diferença

saber notar aquilo que nos é diferente é imprescindível para nossa sobrevivência. o pronome nos aí é crucial, pois deixa claro que o que é diferente para mim pode não ser para você, ou seja, a diferença notável é algo relativo a sujeito. isso tem muitos motivos biológicos, e, mais recentemente (olhando a idade do universo, pois nossa espécie não é a única com lugar ao sol, nem somos os protagonistas da novela), também psicológicos/sociais.

com o passar do tempo vamos construindo um acervo de "coisas manjadas", e a elas não vamos dar atenção, a menos que a coisa manjada te traga benefícios ou malefícios notáveis. o tick do relógio some no ambiente depois de um tempo, mas se o relógio pára, vamos lá ver o que aconteceu. faz sentido: o relógio ta sempre na mesma, não podemos gastar o nosso tempo apreciando esse fato maravilhoso. tempo é energia... temos que usá-la para comer, reproduzir (comer), procurar abrigo.

o acervo de coisas manjadas é construido naturalmente na nossa matéria - corpo, e não só cérebro (não podemos esquecer do sistema imune). existem construções rápidas, como na seguinte situação: você está conhecendo alguém com sotaque de outra região, e nas primeiras conversas algumas palavras soam estranhas, mas depois de várias repetições, aquilo ali se torna mais comum. já o sistema imune inato é uma construção lenta (à vera): ele já vem como cortesia no seu genoma, um presente forjado às custas das mortes dos seus ancestrais. (então trate de viver intensamente)

"se atentar para diferenças" e "menosprezar o comum" vêm sempre de mãos dadas, um não acontece sem o outro. esse comportamento tem suas vantagens. faz uma pessoa ser interessante, faz do exótico erótico, faz uma mãe se preocupar com o silêncio de um filho agitado, faz uma pessoa sentir/apreciar momentos especiais de uma música ou um livro. e, ironicamente, faz alguns quererem fugir da cidade para explorar a natureza.

mãe ensinando filho a menosprezar o comum